Convido-vos a fazer parte de mais uma insónia que, além de uma solidão e tristeza inexplicáveis, tende a ser a minha única companhia noctívaga dos últimos meses. Permitam que introduza uma nova prática mental cujos únicos requisitos são a veracidade de uma boa história e, por conseguinte, o manejo de recursos linguísticos que a tornem o mais aprazível possível.
Assim sendo, e sem mais demoras, iniciemos então uma nova vertente do "Quem Nunca?". Provavelmente estas palavras ocas, sentidas e vividas, por infortúnio da sua descendência jamais ganharão contornos de um bom conto ou história. Espero que, através de algum fenómeno osmótico, consiga que nessa frustrante mágoa, transpareça através delas, uma parte de quem as escreve.
Retomando o desafio proposto anteriormente, a mim próprio e, é claro, ao silêncio cintilante da lâmpada gasta do quarto, ao cinzento do pó que cobre os livros esquecidos e ao lápis que dá vida às folhas virgens, cuja audácia do presente autor decidiu desfolhar, sabendo de antemão que dessa profanação urge um aborto iminente, quase espontâneo, da narrativa que as sustenta.
Quem Nunca, olhou um ecrã preto, totalmente vazio de conteúdo, levado não só pela preguiça matinal que o sono impõe ao nosso cérebro, mas também pela necessidade ambígua de olhar para algo sem estar efectivamente a ver, sem ser perturbado pelo ruído imenso de um, ou uma jornalista, que nos invade o pensamento sem pedir licença, e despeja uma imensidão de dejectos a que, eufemisticamente, chamamos de notícias, cujo conteúdo, na sua grande maioria, serve apenas para manipular o cidadão comum que, já de caneca na mão mas ainda intrigado com a estranheza do sonho dessa madrugada , é encharcado com opiniões formadas, formatadas e até alteradas por uma comunicação social centralista, precipitada, corrupta e até por vezes chauvinista ?
Quem Nunca, assistiu a um filme às duas da manhã sobre um tema que se relaciona directa e intimamente com a sua vida pessoal, focando os aspectos mais sentimentalistas do ser humano, levando a que repensemos nas atitudes que tomamos irreflectidamente com alguma pessoa por quem sentimos um carinho enorme, e guiados pelo conselho da mensagem implícita pelo realizador do programa televisivo, enviamos uma mensagem demasiadamente emotiva para ser tida em consideração devido não só à sua função. que é a de compensar alguém por um erro nosso, mas também pela covardia de não ter sido capaz de enfrentar a mesma pessoa cara a cara e dizer-lhe exactamente as mesmas coisas ?
Quem Nunca disse para si mesmo que ia mudar o seu comportamento num cômputo geral, que repetiu até à exaustão palavras de motivação e confiança, que ia falar com as pessoas que o julgam e criticam, mas quando chega a altura de o colocar em prática, como que imitando a idiossincrasia comportamental das avestruzes quando presentem o medo, "enfiam a cabeça num buraco", retomando os velhos costumes ?
Quem Nunca sucumbiu ao egocentrismo infantil que a religião tão carinhosamente denomina de Gula, que é comer apenas pelo imediato da satisfação ou do prazer de saborear a tarte ou o bolo que ficou para dividir pelos restantes familiares ?
Quem Nunca mentiu aos seus pais acreditando cegamente que eles iriam acreditar na totalidade da ficção que contamos, sabendo que não há no mundo quem nos conheça melhor, e que se não for por uma falha na fiabilidade e fidedignidade da história, eles reconhecem nos nossos olhos, nas mãos, ou até na própria sombra da nossa figura, o corpo inteiro da mentira.
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